O CRENTE DEVE PEDIR PERDÃO POR SEUS PECADOS?


Camilla Ferraz

Uma pergunta muito frequente é: “O que acontece se eu pecar e então morrer antes de ter uma oportunidade de confessar o meu pecado a Deus?”.

Outra pergunta comum é: “O que acontece se eu cometer um pecado, e esquecer que o cometi, e nunca me lembrar de confessá-lo a Deus?”.

Ambas as perguntas se baseiam em uma suposição errada. Salvação não é uma questão dos crentes tentando confessar e se arrepender de todos os pecados que cometem antes de morrerem. Salvação não é baseada em se o Cristão confessou e se arrependeu de todos os seus pecados. Sim, devemos confessar os nossos pecados a Deus assim que ficarmos cientes de que pecamos. No entanto, não precisamos ficar pedindo perdão o tempo todo. A salvação se fundamenta na fé do crente, e não em suas obras.

A EXPIAÇÃO DOS PECADOS

Cristo na cruz expiou os pecados de todos os homens. Portanto, os pecados que faziam a separação entre Deus e os homens foram expiados na cruz. Por isso o apóstolo João diz:

Ele tornou possível a nossa relação com Deus, pois que por Ele foram expiados não só os nossos pecados, mas os de todo o mundo. - 1 João 2:2

Paulo também nos ensina que Deus aplicou a Cristo a penalidade dos pecados dos homens, imputando a Cristo a pena que deveria ser imputada aos homens.

Porque Deus estava em Cristo, reconciliando o mundo consigo mesmo, não mais considerando os pecados dos homens como razão de acusação contra eles. Eis, pois a mensagem que pregamos. - 2 Coríntios 5:19

A expiação é quanto à penalidade do pecado, do qual todos os homens estão livres, pois Cristo os tomou sobre Si em substituição aos homens. Essa penalidade é aquela que foi pregada pelo profeta Isaias:

Agora escutem! O Senhor não é nenhum ser fraco que não possa salvar-nos; nem tão pouco se está a tornar surdo! Ele ouve perfeitamente quando clamam a ele!
Mas o problema é que os vossos pecados vos separam de Deus. Por causa do pecado ele virou-vos a cara e já não vos ouve mais. - Isaías 59:1,2

Assim, quando um pecador clamava, Deus não os ouvia porque um Deus Santíssimo não pode se envolver com o profano. Por esta razão o povo de Israel tinha que se purificar todo ano, sacrificando animais, porque quase todas as coisas, segundo a lei, se purificavam com sangue; e sem derramamento de sangue não há remissão de pecados (Hebreus 9:22).

Essa mesma condição foi imposta a Cristo quando na cruz Ele tomou sobre Si todos os pecados da humanidade. Jesus, com os nossos pecados sobre Si, se viu separado de Deus e bradou muito alto: 

Eli, Eli, lema sabactaní?, Que quer dizer Meu Deus, meu Deus, porque me abandonaste? - Marcos 15:34

Portanto, a penalidade que era a separação de Deus, e que impedia o homem de ter suas orações respondidas por Deus, foi removida por Cristo na cruz.

Agora podemos entender que Deus estava em Cristo, reconciliando o mundo consigo mesmo, não mais considerando os pecados dos homens como razão de acusação contra eles porque Cristo experimentou a separação em lugar dos homens. Com isso Ele tornou possível a nossa relação com Deus, porque por Ele foram expiados não só os nossos pecados, mas os de todo o mundo.

É por isso que Cristo é o mediador de um novo pacto; porque tendo morrido para libertar as pessoas da culpa dos pecados, até os cometidos sob a primeira aliança, faz agora com que todos aqueles que são chamados possam entrar na posse dos bens eternos que lhes foram prometidos. - Hebreus 9:15

Assim podemos entender melhor o que Cristo fez na cruz, e também podemos entender o motivo pelo qual Deus não mais se lembrará de nossos pecados. 

É evidente que pecados que já tenham sido perdoados, não há mais necessidade de fazer sacrifícios para apagá-los. Assim, meus irmãos, devido ao sangue de Jesus podemos entrar, com ousadia, no lugar santíssimo. Este é o caminho novo e cheio de vida que Cristo nos abriu ao rasgar a cortina de separação, por meio da sua morte por nós. - Hebreus 10:18-20

Mas, assim como é evidente que pecados que já tenham sido perdoados, não há mais necessidade de fazer sacrifícios para apagá-los, também não devemos pedir perdão por pecados já perdoados. Lembrando que Cristo rasgou o véu da separação entre Deus e os homens, por meio da sua morte expiatória por nós. 

A JUSTIFICAÇÃO DOS PECADORES

Por Cristo foram expiados não só os nossos pecados, mas os pecados de todo o mundo. Portanto, quando colocamos nossa fé em Jesus Cristo para salvação, todos os nossos pecados já estavam perdoados desde a cruz, e isso inclui pecados do passado, do presente, do futuro, grandes e pequenos.

Quando colocamos nossa fé em Jesus Cristo para salvação, somos justificados por Deus. A justificação é um ato judicial de Deus, no qual ele declara, com base na justiça de Cristo, que todas as reivindicações são satisfeitas com vista ao pecador.

A justificação é o ato judicial através do qual Deus soberanamente decreta a absolvição do pecador, e o declara justo (Atos 13:39). A justificação veio como um ato da graça e do amor de Deus por causa da ofensa do homem (Romanos 5:18).

A justificação é um ato de misericórdia de Deus que não merecemos. Perdoar significa esquecer os pecados. Justificar é declarar o pecador como se nunca houvesse cometido pecados. O fundamento da justificação é a obediência e morte redentora de Cristo, assim como sua ressurreição.

Assim podemos entender as palavras de Paulo quando diz: 

Sendo, pois, declarados justos pela fé, temos paz com Deus, devido ao que nosso Senhor Jesus Cristo fez por nós. Pois em razão da nossa fé, temos direito a esta graça, e em confiança nos regozijamos pelo dia em que partilhamos da glória de Deus. Mas Deus prova o seu amor para conosco em que Cristo morreu por nós, sendo nós ainda pecadores.
E visto que pelo sangue de Cristo Deus nos tornou retos aos seus olhos, quanto mais não fará ele agora em nosso favor, salvando-nos do julgamento divino que há de vir. E se, quando éramos inimigos de Deus, fomos trazidos em paz para junto dele pela morte de seu Filho, quanto mais, tendo sido reconciliados com Deus, seremos salvos de castigo eterno pela sua vida. - Romanos 5:1,8-10

Assim, a expiação é universal, ou seja, alcançou a todos os pecados de todos os homens de todos os tempos. Já a justificação é obtida mediante a fé em Jesus e no seu Evangelho, sendo, portanto limitada aos que creem.

Ao contrário da expiação, a justificação não tem efeito sobre os pecados, mas sim sobre o pecador. Assim, todos os pecados foram expiados na cruz, e o pecador é justificado somente mediante a fé em Jesus. E não poderia ser de outro modo porque é evidente que pecados que já tenham sido expiados na cruz, não podem mais ser justificados.

A expiação é apenas sobre os pecados para remover a separação que o pecado fazia entre Deus e os homens, enquanto a justificação é sobre o pecador que crê em Cristo para que, pelo sangue de Cristo, Deus o torne reto e justo aos seus olhos, para salvá-lo do julgamento divino que há de vir trazendo o castigo eterno.

A expiação não livra o homem da acusação do diabo. Já a justificação faz com que ninguém acuse aqueles a quem Deus justificou. 

Quem intentará acusação contra os escolhidos de Deus? É Deus quem os justifica. - Romanos 8:33

Cristãos não têm que ficar pedindo por perdão ou se arrependendo para ter os seus pecados perdoados. Jesus morreu para pagar pela penalidade de todos os nossos pecados, e quando são perdoados, estão todos definitivamente perdoados (Colossenses 1:14; Atos 10:43).

A CONFISSÃO DOS PECADOS

O que devemos fazer é confessar nossos pecados: “Se confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo para nos perdoar os pecados e nos purificar de toda injustiça.”

Por favor, note que essa passagem não menciona pedir perdão a Deus pelos pecados.

Em nenhum lugar, depois da cruz, as Escrituras ensinam que os crentes em Jesus devam pedir perdão a Deus pelos pecados cometidos. O que 1 João 1:9 nos diz para fazer é “confessar” nossos pecados a Deus.

A palavra “confessar” significa “concordar com”. Quando confessamos nossos pecados a Deus, estamos concordando com Deus que estamos errados, que temos pecado.

1 João 1:9, no entanto, aparenta indicar que de alguma forma perdão depende da nossa confissão de nossos pecados a Deus. Como é que isso funciona se todos os nossos pecados já foram perdoados na cruz, e o pecador foi justificado no instante em que recebeu a Cristo como Salvador?

Parece ser o caso que o Apóstolo João está descrevendo aqui perdão “relacional”. Todos os nossos pecados são perdoados “posicionalmente”. O perdão “posicional” é o que garante nossa salvação e promete um lar eterno no Céu. Quando estivermos diante de Deus depois da morte, Deus não vai negar nossa entrada no céu por causa de nossos pecados. Isso é perdão “posicional”. O conceito de perdão “relacional” é baseado no fato de que quando pecamos, ofendemos a Deus e entristecemos o Espírito Santo (Efésios 4:30).

Embora Deus tenha perdoado todos os pecados que cometemos, eles ainda resultam em um bloqueio ao nosso relacionamento com Deus. Um filho adolescente que peca contra o seu pai não é expulso de sua família. Um pai devoto vai perdoar seus filhos incondicionalmente. Ao mesmo tempo, um bom relacionamento entre pai e filho não pode ser alcançado até que esse relacionamento seja restaurado. Isso só pode acontecer quando o filho confessa seus erros ao pai. Por isso que confessamos nossos pecados a Deus, e não para manter nossa salvação, mas para nos trazer de volta a um relacionamento íntimo com o Deus que nos ama e já nos perdoou.

Deus nos perdoa através da nossa confissão de uma forma contínua, por causa do fato de que Ele é “fiel e justo”. Como é que Deus é “fiel e justo”? Ele é fiel por ouvir a nossa confissão provando que os nossos pecados não fazem mais separação entre o pecador e o Deus Santo. Ele é justo por aplicar o pagamento de Cristo aos nossos pecados, reconhecendo que os pecados têm, na verdade, sido expiados na cruz.

EM ADÃO TODOS MORREM

Embora todos os pecados tenham sido expiados na cruz, todos morrem porque o salário do pecado é a morte. E mesmo aqueles que foram justificados mediante a fé também morrem. Por quê?

A morte não é consequência dos pecados que cometemos. A morte é uma sentença ao pecado que Adão cometeu.

Portanto, assim como por um só homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado a morte, assim também a morte passou a todos os homens, porquanto todos pecaram. – Romanos 5:12.

Cremos que a Bíblia ensina que, pecando Adão, todo o gênero humano pecou nele. Ele era o cabeça natural e federal de toda a raça humana. Trazia em si o germe de toda a humanidade. Hereditariedade e atavismo confirmam plenamente o ensino das Escrituras a este respeito.

Desde Adão até os dias de Moisés, ninguém foi julgado culpado pelos próprios pecados, pois a lei não tinha ainda sido promulgada. No entanto, todas as pessoas que viveram no período compreendido entre a época de Adão e os dias de Moisés, morreram. Portanto, suas mortes não podem ser atribuídas diretamente aos seus pecados, pois não havia nenhuma lei para estabelecer esta sentença, porque onde não há lei o pecado não é levado em conta. - Romanos 5:13

Adão não foi somente o pai da humanidade ele foi também seu representante e cabeça federal.

Assim, as mortes nesse período foram causadas pelo pecado de Adão. Toda a humanidade estava potencialmente em Adão quando ele desobedeceu a Deus, embora não estivesse individualmente, pois a posteridade ainda não havia surgido. Então, a penalidade daquele pecado de Adão atingiu toda a humanidade (porque somos membros da raça adâmica, descendentes de Adão), pois dizia que o homem voltaria ao pó, ou seja, provaria a morte física.

Porque antes da lei já estava o pecado no mundo, mas onde não há lei o pecado não é levado em conta. No entanto a morte reinou desde Adão até Moisés, mesmo sobre aqueles que não pecaram à semelhança da transgressão de Adão... pela ofensa de um só, a morte veio a reinar... pela desobediência de um só homem muitos foram constituídos pecadores. - Romanos 5:13,14,17,19

Por isso a Bíblia diz que em Adão todos morrem (1ª Coríntios 15:22), porque pelo pecado de Adão toda a sua posteridade foi atingida. E o pecado veio só por Adão que pecou, mas a sentença veio, na verdade, do pecado de Adão sobre toda a sua posteridade, pois pelo pecado de Adão, a morte veio a reinar sobre todos os homens, até mesmo sobre aqueles que não pecaram a semelhança de Adão. Portanto, pelo pecado de Adão veio o juízo sobre todos os homens para condenação da morte física, porque todos se tornaram pecadores (Romanos 5:15-19).

Todos os homens nascem já pecadores por causa do pecado de Adão. Independentemente de qualquer ato de pecado. A humanidade não herdou o pecado de Adão, assim como sua natureza pecaminosa. Toda humanidade pecou por meio de Adão, por isso em Adão todos morrem, e a morte é consequência deste pecado.

Por um homem veio a morte... em Adão todos morrem. - 1ª Coríntios 15:21,22

Mesmo que nunca tivéssemos cometido pecado, ainda assim seríamos pecadores, pois pelo pecado de Adão, o juízo veio sobre todos os homens.

Pela desobediência de um só homem muitos se tornaram pecadores. -Romanos 5:19

Já vimos que quando Adão pecou, toda a sua posteridade estava substancialmente em sua carne.

A semente da humanidade da qual viemos estava substancialmente em Adão desde o começo. Assim, quando Adão pecou todos os homens se tornaram pecadores.

Eis que eu nasci em iniquidade, e em pecado me concedeu minha mãe. - Salmos 51:5

Os homens nascem pecadores porque estavam em Adão, o cabeça federal.

Até mesmo as crianças de colo e os natimortos provam a morte física porque pecaram em Adão, pois ele era o cabeça natural da humanidade como seu progenitor, mas também era o cabeça federal da humanidade porque a representava, e enfrentou a tentação tanto por si mesmo como pelos seus descendentes, mas caiu, levando à queda toda a sua posteridade.

A humanidade caiu em Adão porque estava substancialmente nele. Este mesmo conceito se encontra registrado em Hebreus 7:9,10, onde se diz que Levi, por meio de Abraão, pagou o dizimo a Melquisedeque, porquanto Levi estava ainda nos lombos de seu pai quando Melquisedeque saiu ao encontro deste. Ou seja, Levi ainda nem existia individualmente como pessoa, mas estava substancialmente em Abraão, quando este pagou o dizimo a Melquisedeque. Levi é descendente do patriarca Abraão, que é o cabeça federal de Israel.

A humanidade caiu em Adão porque estava substancialmente nele, embora não estivesse individualmente, pois a posteridade ainda não havia surgido. Portanto, assim como Levi pagou o dízimo a Melquisedeque por meio de Abraão, toda a humanidade pecou por meio de Adão e caiu com ele em seu primeiro pecado.

Quando Adão foi estabelecido no Éden como um ser responsável diante de Deus, ele estava ali como cabeça federal, como representante legal de sua posteridade. Portanto, quando Adão pecou todos os seres humanos pecaram. Quando Adão morreu todos os seres humanos morreram (em Adão todos morrem).

O fato que todos comem do suor das suas faces; sofrem doenças e tristezas; e voltem ao pó do que são feitos é suficiente deduzir que Adão é nosso cabeça federal (Gênesis 3.17-19; Romanos 5.12, 19). Todos foram incluídos na primeira condição de não comer o fruto como todos são participantes da maldição que veio pelo ato de Adão comê-lo. A humanidade era tão unida a Adão que todos ficaram retos enquanto ele continuou assim, e caíram nele quando ele caiu.

Adão não pecou meramente por nós; mas nós pecamos nele.

CONCLUSÃO

Quando se vai estudar a Bíblia deve-se separar as alianças. A Nova Aliança em que estamos inseridos teve início com o derramamento de sangue e morte do Testador.

Quando alguém deixa um testamento, só depois de essa pessoa ter efetivamente morrido é que esse testamento é válido. Só depois da sua morte, e não durante o tempo de vida, é que o testamento tem validade. - Hebreus 9:16,17.

Com isso eu quero mostrar que a Nova Aliança somente entrou em vigor com a morte de Cristo, e assim tudo o que ocorreu antes da crucificação de Jesus integra a Velha Aliança, mesmo que esteja nos livros de Mateus, Marcos, Lucas e João.

Veja que o próprio Cristo ratifica isso ao dizer:

Porque isto é o meu sangue, O sangue do novo testamento, que é derramado por muitos, para remissão dos pecados. - Mateus 26:28

Depois da morte de Jesus, ou seja, quando o Novo Testamento começou a vigorar, não há um texto sequer que nos ensine ou ordene a pedir perdão a Deus pelos pecados. Foram escritos 23 livros, e nenhuma palavra acerca de pedir perdão por pecados cometidos. Por quê isso?

Porque haveria uma contradição na Palavra de Deus. Se Deus afirma categoricamente que nos justificou, como Ele poderia exigir que nós pedíssemos perdão por pecados pelos quais estamos já justificados?

Ele verá o fruto do trabalho da sua alma, e ficará satisfeito; com o seu conhecimento o meu servo justo justificará a muitos, e as iniquidades deles levará sobre si. – Isaías 53:11

A Bíblia ensina que qualquer pessoa que crê simples e verdadeiramente em Jesus Cristo como seu Salvador pessoal que o livra do pecado, nesse momento é irrevogável e eternamente justificada. A justificação é o ato de Deus por meio do qual Ele não somente perdoa o pecado dos crentes, mas também os declara perfeitamente justos por meio da imputação da obediência e da Justiça do próprio Cristo sobre eles, mediante a fé.

Na justificação, Deus “deposita” a Justiça de Cristo na conta do crente. Ele atribui ao cristão a perfeição moral de Seu próprio Filho.

Na justificação Deus não ignora a nossa culpa, mas, através de sua Justiça, julga e condena o pecador a morte de cruz. No entanto, a justiça de Cristo nos é imputada pela fé no Filho de Deus (Filipenses 3:9).

A palavra grega dikaiosunh traduzida como justificação significa restituir à inocência original; tornar justo.

Portanto, todos os pecados foram expiados por Cristo na cruz. E esta expiação removeu a separação entre Deus e os homens causada pelos pecados.

Os pecadores que colocam sua fé em Jesus são justificados. E esta justificação os salva da ira divina que há de vir trazendo o castigo eterno sobre aqueles que não foram justificados por causa da incredulidade.

Não sabeis que os injustos não herdarão o Reino de Deus? - 1 Coríntios 6:9



JESUS TEVE MEDO DE MORRER?

Camilla Ferraz

“E, sem dúvida alguma, grande é o mistério da piedade: Deus se manifestou em carne, foi justificado no Espírito, visto dos anjos, pregado aos gentios, crido no mundo, recebido acima na glória.’’ 1 Timóteo 3.16

O texto do Apóstolo Paulo escrevendo ao seu filho na Fé Timóteo expressa uma das maiores verdades do cristianismo, bem como também um dos maiores paradoxos das Sagradas Escrituras: Deus se fez carne! Esse evento é tão sublime, que o próprio apóstolo se refere a ele como ‘’um mistério’’. Estamos diante de um texto que retrata o milagre da Encarnação: O Verbo de Deus, a Segunda Pessoa da Trindade se fez Homem! (João 1.1).

1-   JESUS TEM DUAS NATUREZAS
As duas naturezas de Jesus, humana e divina, são inseparáveis. Jesus vai ser para sempre Deus-homem, 100% Deus e 100% homem, duas naturezas distintas em uma Pessoa. A humanidade de Jesus e a Sua divindade não se misturam, mas se unem sem perderem suas identidades separadas. Jesus às vezes vivia com as limitações de humanidade (João 4:6; 19:28) e outras vezes com o poder de Sua divindade (João 11:43; Mateus 14:18-21). Nos dois casos, as ações de Jesus foram de Sua única Pessoa. Jesus tinha duas naturezas, mas só uma personalidade.

União hipostática é o termo usado para descrever como Deus Filho, Jesus Cristo, tomou para Si a natureza humana, ao mesmo tempo permanecendo 100% Deus. Jesus sempre foi Deus (João 8:58; 10:30), mas na encarnação Jesus se fez carne – Ele tornou-se um ser humano (João 1:14). A adição da natureza humana à natureza divina resulta em Jesus, o Deus-homem. Essa é a união hipostática, Jesus Cristo, uma Pessoa, 100% Deus e 100% homem.

Jesus é Deus e homem. Jesus sempre foi Deus, mas Ele não se tornou um ser humano até ser concebido em Maria. Jesus se tornou um ser humano para poder se identificar conosco em nossas dificuldades (Hebreus 2:17) e, mais importante do que isso, para poder morrer na cruz para pagar pela penalidade de nossos pecados (Filipenses 2:5-11). Em resumo, a união hipostática ensina que Jesus é 100% humano e 100% divino, que não há nenhuma mistura ou enfraquecimento de nenhuma das naturezas, e que Ele é uma só pessoa, para sempre.

É importante dizer que, quando afirmamos que Jesus é verdadeiro Homem, não queremos dizer que Ele seja parcialmente Homem, mas que Ele é totalmente Homem. Tudo que pertence à essência da verdadeira humanidade é verdadeiro nEle. Ele é tão exatamente Homem como cada um de nós. O fato de que Jesus é verdadeira e totalmente Homem está claro pelo fato de que Ele tem um corpo humano (Lucas 24:39), uma mente humana (Lucas 2:52) e uma alma humana (Mateus 26:38). Jesus Se assemelha a um homem, tem todos os aspectos do que seja essencial à humanidade. Ele possui completa humanidade.

Para a maior parte das pessoas, é óbvio que Jesus é e continuará sendo Deus, eternamente. Mas, para alguns de nós, tem escapado que Jesus também será eternamente Homem. Ele continua sendo Homem e o será para sempre. 

A verdade sobre as duas naturezas distintas de Cristo de Sua perfeita humanidade e divindade é conhecida e bem compreendida pelos cristãos. Mas, para uma perfeita compreensão da Encarnação, precisamos ir mais longe. Devemos entender que as duas naturezas de Cristo permanecem distintas, retendo suas exatas propriedades. Mas, o que significa isto? Duas coisas: 1) - Elas não alteram as propriedades essenciais uma da outra; 2) - nem se fundem num misterioso tipo de natureza.

Por exemplo, a natureza humana de Jesus não se tornou totalmente onisciente através de Sua união com Deus, o Filho; nem Sua natureza divina se tornou ignorante de coisa alguma. Se qualquer uma das naturezas tivesse sofrido uma mudança em sua essência natural, então Cristo já não seria verdadeira e totalmente Homem, nem verdadeira e totalmente Deus.

Não podemos dividir Cristo em humano e divino. O Deus ETERNO encarnou no ventre de Maria, e nasceu como um menino. O Verbo se fez carne, mas também continuou sendo o Verbo. Portanto, em Cristo há duas naturezas, cada uma mantendo as suas próprias propriedades, e juntas unidas numa substância e, em uma única pessoa.


2-   CRISTO É SOMENTE UMA PESSOA
O que vimos até agora sobre a divindade e humanidade de Cristo demonstra que Ele tem duas naturezas, a divina e a humana; que cada natureza é total e completa; que elas permanecem distintas e não se misturam, para formar uma terceira natureza e que Cristo é tanto Deus como homem para sempre.

Mas, se Cristo tem duas naturezas, isto significa que Ele é duas pessoas? Não, Ele não é. Cristo continua sendo uma só Pessoa. Existe apenas um Cristo. A Bíblia é muito clara em que, conquanto Jesus tenha duas naturezas, Ele é apenas uma Pessoa.

Em outras palavras, isto significa que não existem dois Cristos. Mesmo tendo uma dualidade de naturezas, Ele não é duas pessoas, mas apenas um Jesus Cristo. Conquanto permanecendo distintas, as duas naturezas são unidas, de tal maneira que Ele é uma só Pessoa.

3-   QUEM MORREU NA CRUZ? O DEUS UNIGÊNITO OU O FILHO DE MARIA?
A primeira verdade que devemos entender é que Jesus é uma só Pessoa com duas naturezas - a natureza divina e a natureza humana. Em outras palavras, Jesus é tanto Deus como Homem.

Na verdade somos incapazes de compreender totalmente uma pessoa com duas naturezas. É impossível para nós entendermos totalmente como Deus trabalha. Nós, como seres humanos finitos, não devemos supor que podemos compreender um Deus infinito. Jesus é o Filho de Deus por ter sido concebido pelo Espírito Santo (Lucas 1:35). Mas isso não significa que Ele não já existia antes de ser concebido. Jesus sempre existiu (João 8:58; 10:30). Quando Jesus foi concebido, Ele se tornou um ser humano em adição ao fato de ser Deus (João 1:1,14).

Embora Cristo tenha duas naturezas distintas e imutáveis, contudo Ele permanece uma só Pessoa.
Ambas as naturezas são representadas na Escritura como constituindo “uma só Ser”, isto é, como unidas em uma só Pessoa. Em João 1:14, lemos: "E o Verbo se fez carne, e habitou entre nós, e vimos a sua glória, como a glória do unigênito do Pai, cheio de graça e de verdade".

Vemos aqui as duas naturezas: o Verbo (Sua divindade) e a carne (Sua humanidade). Contudo, vemos também que existe uma só Pessoa, pois lemos que “O Verbo se fez carne”, exigindo que reconheçamos a unidade das duas naturezas, de modo a ser uma só Pessoa.

Considerando que Cristo tem duas naturezas numa só Pessoa e, tendo em vista ainda o que está nisso envolvido, examinemos agora as duas implicações disto, o que nos ajudará a completar o quadro de nossa compreensão.

Há coisas que são verdadeiras numa natureza, mas não em outra, mesmo assim são verdadeiras na Pessoa de Cristo.

O fato de Cristo ter duas naturezas significa que há coisas que são verdadeiras em Sua natureza humana, mas não são verdadeiras à Sua natureza divina. Por exemplo, Sua natureza humana foi pendurada na cruz e Sua natureza divina jamais teve fome. Então, quando Cristo sentiu fome na Terra, foi Sua natureza humana quem sentiu fome e não Sua natureza divina.

Agora estamos em posição de entender que, em vista das duas naturezas em uma só Pessoa, as coisas que são verdadeiras numa natureza não o são noutra, mas tudo que é feito por uma das duas naturezas em Cristo é, verdadeiramente, feito pela Sua Pessoa. Em outras palavras, uma coisa que somente uma das duas naturezas faz pode ser considerada como feita pelo próprio Cristo. Do mesmo modo, as coisas que são verdadeiras de uma natureza, mas não de outra, são verdadeiras na Pessoa de Cristo como um todo. Isto significa que, se existe alguma coisa que somente uma das duas naturezas de Cristo faz, Ele pode perfeitamente dizer “Eu fiz”.

Temos muitos exemplos na Escritura que o demonstram. Por exemplo, em João 8:58, lemos Jesus dizendo: "Antes que Abraão existisse, eu sou".  Ora, a natureza humana de Cristo não existia antes de Abraão, mas Sua natureza divina, que existe eternamente, já existia antes de Abraão. Mas, visto como Cristo é uma só Pessoa, Ele pôde afirmar: “... Antes que Abraão existisse, eu sou”.
 
Outro exemplo simples é a morte de Cristo. Deus não pode morrer. Jamais devemos mencionar a morte de Cristo como tendo sido “a morte de Deus”.  Mas, como os humanos morrem, a natureza humana de Cristo foi a que morreu. Desse modo, mesmo que a natureza divina de Cristo não tenha morrido, podemos dizer que “Cristo experimentou a morte por todos os homens”, em vista da perfeita união das duas naturezas numa só Pessoa. Por isso Grunden[1] diz: “Em virtude da união com a natureza humana de Jesus, Sua natureza divina, de certo modo, provou algo semelhante a passar pela morte. Assim, a Pessoa de Cristo experimentou a morte”.

Assim podemos entender as palavras de Pedro aos judeus: “matastes o Autor da vida, a quem Deus ressuscitou dentre os mortos, do que nós somos testemunhas.” - Atos 3:15.

O Autor da vida é o Deus Filho, pois sem Ele nada do que foi feito se fez. Ora, a natureza humana de Cristo não existia quando Cristo criou a vida, mas Sua natureza divina, que existe eternamente, já existia. Mas, visto como Cristo é uma só Pessoa, Pedro pôde afirmar: “matastes o Autor da vida.”

Da mesma forma, sua natureza humana foi ressuscitada por sua natureza divina. Não obstante, podemos afirmar que Jesus ressuscitou a Si mesmo, conforme prometera:

“Destruí vós este templo, e eu o reerguerei em três dias. Os judeus replicaram: Em quarenta e seis anos foi edificado este templo, e tu hás de levantá-lo em três dias? Mas ele falava do templo do seu corpo. Depois que ressurgiu dos mortos, os seus discípulos lembraram-se destas palavras e creram na Escritura e na palavra de Jesus.” - João 2:19-22.

4-   CABEÇA FEDERAL DA RAÇA HUMANA
Não podemos entender em todos os seus aspectos a humanidade de Jesus. Em nossa limitação humana não temos como avaliar plenamente porque Jesus era a segundo cabeça federal da raça humana. O que isto significa?

 “Portanto, assim como por um só homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado a morte, assim também a morte passou a todos os homens, porquanto todos pecaram”. – Romanos 5:12.

A palavra “mundo” utilizada pelo apóstolo Paulo no texto de Romanos 5:12 é a mesma usada pelo apóstolo João no evangelho de João 3:16. Esta palavra no original grego é cosmos, e se refere à humanidade.

Cremos que a Bíblia ensina que, pecando Adão, todo o gênero humano pecou nele. Ele era o cabeça natural e federal de toda a raça humana. Trazia em si o germe de toda a humanidade. Hereditariedade e atavismo confirmam plenamente o ensino das Escrituras a este respeito.

Adão, como primeiro cabeça federal e natural da espécie humana, ao pecar, contaminou toda a humanidade. A consequência desta contaminação foi a morte.

Desde Adão até os dias de Moisés, ninguém foi julgado culpado pelos próprios pecados, pois a lei não tinha ainda sido promulgada. No entanto, todas as pessoas que viveram no período compreendido entre a época de Adão e os dias de Moisés, morreram. Portanto, suas mortes não podem ser atribuídas diretamente aos seus pecados, pois não havia nenhuma lei para estabelecer esta sentença, porque onde não há lei o pecado não é levado em conta (Romanos 5:13).

Adão não foi somente o pai da humanidade ele foi também seu representante e cabeça federal.

Assim, as mortes nesse período foram causadas pelo pecado de Adão. Toda a humanidade estava potencialmente em Adão quando ele desobedeceu a Deus, embora não estivesse individualmente, pois a posteridade ainda não havia surgido. Então, a penalidade daquele pecado de Adão atingiu toda a humanidade (porque somos membros da raça adâmica, descendentes de Adão), pois dizia que o homem voltaria ao pó, ou seja, provaria a morte física.

“Porque antes da lei já estava o pecado no mundo, mas onde não há lei o pecado não é levado em conta. No entanto a morte reinou desde Adão até Moisés, mesmo sobre aqueles que não pecaram à semelhança da transgressão de Adão... pela ofensa de um só, a morte veio a reinar... pela desobediência de um só homem muitos foram constituídos pecadores” (Romanos 5:13,14,17,19).

Por isso a Bíblia diz que em Adão todos morrem (1ª Coríntios 15:22), porque pelo pecado de Adão toda a sua posteridade foi atingida. E o pecado veio só por Adão que pecou, mas a sentença veio, na verdade, do pecado de Adão sobre toda a sua posteridade, pois pelo pecado de Adão, a morte veio a reinar sobre todos os homens, até mesmo sobre aqueles que não pecaram a semelhança de Adão. Portanto, pelo pecado de Adão veio o juízo sobre todos os homens para condenação da morte física, porque todos se tornaram pecadores (Romanos 5:15-19).

Todos os homens nascem já pecadores por causa do pecado de Adão. Independentemente de qualquer ato de pecado. A humanidade não herdou o pecado de Adão, assim como sua natureza pecaminosa. Toda humanidade pecou por meio de Adão, por isso em Adão todos morrem, e a morte é consequência deste pecado.

“Por um homem veio a morte... em Adão todos morrem” (1ª Coríntios 15:21,22).

Mesmo que nunca tivéssemos cometido pecado, ainda assim seríamos pecadores, pois pelo pecado de Adão, o juízo veio sobre todos os homens.

“Pela desobediência de um só homem muitos se tornaram pecadores” (Romanos 5:19). Já vimos que quando Adão pecou, toda a sua posteridade estava substancialmente em sua carne.

A semente da humanidade da qual viemos estava substancialmente em Adão desde o começo. Assim, quando Adão pecou todos os homens se tornaram pecadores.

“Eis que eu nasci em iniquidade, e em pecado me concedeu minha mãe”. (Salmos 51:5).

Os homens nascem pecadores porque estavam em Adão, o cabeça federal.

Até mesmo as crianças de colo e os natimortos provam a morte física porque pecaram em Adão, pois ele era o cabeça natural da humanidade como seu progenitor, mas também era o cabeça federal da humanidade porque a representava, e enfrentou a tentação tanto por si mesmo como pelos seus descendentes, mas caiu, levando à queda toda a sua posteridade.

A humanidade caiu em Adão porque estava substancialmente nele. Este mesmo conceito se encontra registrado em Hebreus 7:9,10, onde se diz que Levi, por meio de Abraão, pagou o dizimo a Melquisedeque, porquanto Levi estava ainda nos lombos de seu pai quando Melquisedeque saiu ao encontro deste. Ou seja, Levi ainda nem existia individualmente como pessoa, mas estava substancialmente em Abraão, quando este pagou o dizimo a Melquisedeque. Levi é descendente do patriarca Abraão, que é o cabeça federal de Israel.

A humanidade caiu em Adão porque estava substancialmente nele, embora não estivesse individualmente, pois a posteridade ainda não havia surgido. Portanto, assim como Levi pagou o dízimo a Melquisedeque por meio de Abraão, toda a humanidade pecou por meio de Adão e caiu com ele em seu primeiro pecado.

Paulo declarou que Adão é a figura daquele que havia de vir, Cristo (Romanos 5:14). Adão é uma figura de Cristo por que ambos são os únicos cabeças federais da raça humana.

O termo "cabeça federal" tem desaparecido quase que completamente da literatura cristã atual. Embora não seja uma expressão escriturística, ela é muito importante na exposição doutrinária. O principio que se deseja passar com o termo "cabeça federal" é o da representação. Só houve dois cabeças federais, os quais Deus entrou em aliança Adão e Cristo. Cada um representou legalmente diante de Deus muitas pessoas. Adão representou a totalidade da raça humana, pecou e caiu; Cristo representou a totalidade da raça humana para a expiação de pecados, e especialmente Cristo representou apenas os que lhe foram dados pelo Pai desde os tempos eternos para a justificação do pecador.

Quando Adão foi estabelecido no Éden como um ser responsável diante de Deus, ele estava ali como cabeça federal, como representante legal de sua posteridade. Portanto, quando Adão pecou todos os seres humanos pecaram. Quando Adão morreu todos os seres humanos morreram (em Adão todos morrem).

O fato que todos comem do suor das suas faces; sofrem doenças e tristezas; e voltem ao pó do que são feitos é suficiente deduzir que Adão é nosso cabeça federal (Gênesis 3.17-19; Romanos 5.12, 19). Todos foram incluídos na primeira condição de não comer o fruto como todos são participantes da maldição que veio pelo ato de Adão comê-lo. A humanidade era tão unida a Adão que todos ficaram retos enquanto ele continuou assim, e caíram nele quando ele caiu.

Adão não pecou meramente por nós; mas nós pecamos nele.

Assim também foi com Cristo quanto à justificação, quando ele veio a esta terra ele também sustentaria uma posição federal. Quando Cristo cumpriu a lei e se fez obediente até a morte de cruz, todos aqueles que o Pai lhe deu, a quem Jesus representava foram considerados justos; quando ele se levantou dos mortos, todos passaram a ter vida; e quando ele ascendeu às alturas todos ascenderam com Ele.

Porque assim como a morte veio por um homem, também a ressurreição dos mortos veio por um homem. Porque, assim como todos morrem em Adão, assim também todos serão vivificados em Cristo. - 1 Coríntios 15:21,22

Contudo, há um sentido em que Cristo fez algo pela raça humana inteira, a expiação dos pecados. É verdade que por um só pecado de Adão veio sobre todos os homens a condenação, mas também por um só ato de justiça de Cristo veio a expiação dos pecados a todos os homens. - Romanos 5:18.

Por isso a Bíblia afirma a expiação universal dos pecados porque Ele tornou possível a nossa relação com Deus, pois que por ele foram expiados não só os nossos pecados, mas os de todo o mundo, até mesmo daqueles que O negam cujo fim é a perdição eterna (1 João 2:2 – 2 Pedro 2:1).

Assim temos posto a nossa esperança no Deus vivo, que expiou os pecados de todos os homens, e justificou os homens que nEle creem (1 Timóteo 4:10). A expiação é universal, e atua sobre os pecados. A justificação é limitada aos eleitos, e atua sobre as pessoas mediante a fé.

A diferença entre Adão e Jesus é que Adão, embora feito reto como o homem de Nazaré, possuía apenas a natureza humana, mas Cristo possui duas naturezas.

No entanto, embora sua natureza humana seja uma criação especial do Espírito Santo, é a pessoa de Cristo que é o cabeça federal, e não a natureza humana. Contudo, diferente de Adão, Cristo não é o cabeça natural da raça humana porque Cristo não teve descendentes.

Assim como Adão antes da queda, Cristo não tinha uma alma humana depravada porque Adão não foi o cabeça federal de Cristo. O nascimento de Cristo foi milagroso e não foi submetido à regra universal imposta a todos os outros nascimentos. Adão é o primeiro homem, Cristo é o segundo homem. Apenas eles eram a imagem e semelhança de Deus.

O primeiro homem, Adão, foi feito alma vivente (Gênesis 2:7); o segundo homem, Jesus, é espírito vivificante. Mas não é o espiritual que vem primeiro, e sim o animal; o espiritual vem depois. O primeiro homem, tirado da terra, é terreno; o segundo veio do céu. Qual o homem terreno, tais os homens terrenos; e qual o homem celestial, tais os homens celestiais. - 1 Coríntios 15:45-48.

5-   O MEDO É INERENTE AO HOMEM CAÍDO - JESUS ERA UM HOMEM RETO
Adão foi constituído governante da terra por ordem do próprio Deus (Gn 1:27,28; Jó 34:13), mas, foi derrotado e caiu. Após a queda, a primeira característica que Adão, cabeça federal da humanidade, apresentou foi o medo.

Mas chamou o Senhor Deus a Adão, e perguntou-lhe: Onde estás? Respondeu-lhe Adão: Ouvi a tua voz no jardim e TIVE MEDO, porque estava nu; e escondi-me. - Gênesis 3:9,10.

Aquele a quem foi dado o governo da Terra, e que falava com Deus diariamente, estava agora com medo de Deus.

Caim, o primeiro homem nascido após a queda, após matar seu irmão passou a esconder-se vivendo como fugitivo errante pela terra com medo de ser morto. - Gênesis 4:13-14.

Portanto, o medo é uma característica do homem caído, e não do homem reto criado por Deus à sua imagem e semelhança (Gênesis 1:26,27) para dominar sobre a Terra.

Deus criou o homem reto para que o buscasse (Atos 17:26,27). Porém, o homem se meteu em muitas confusões, caiu e se perdeu (Eclesiastes 7:29).

Após cair Adão gerou filhos e filhas à sua semelhança, conforme a sua imagem caída. (Gênesis 5:3,4).

Jesus é totalmente Deus e totalmente homem, e a sua encarnação é de extrema importância. Ele viveu uma vida humana, mas não possuía uma natureza pecaminosa como nós. Portanto, as características humanas de Jesus eram as mesmas características de Adão antes da queda, o homem original feito à imagem e semelhança de Deus.

Após a queda Adão e seus descendentes tiveram suas características mudadas para o mal, onde o egoísmo é o próprio mal, e o primeiro homem gerado à imagem caída de Adão foi capaz de matar o seu irmão apenas por inveja. E logo apresentou o medo.

Cristo possuía características que nenhum ser humano possuía, como por exemplo, Ele se santificava (João 17:19).

Assim como Adão, Jesus foi tentado, mas nunca pecou (Hebreus 2:14-18; 4:15). O pecado entrou no mundo através de Adão, e a natureza pecaminosa de Adão foi transferida para cada bebê nascido no mundo (Romanos 5:12) - exceto para Jesus. Porque Jesus não teve pais humanos, Ele não herdou uma natureza pecaminosa de José e Maria, pois o que em Maria foi gerado procede do Espírito Santo (Mateus 1:20). Jesus foi gerado em Maria, mas não foi gerado de Maria.

Outra diferença entre Adão e Cristo é que enquanto Adão foi criado por Deus, Jesus foi gerado por Deus.
Cada ser gera conforme a sua espécie. Mas quando se trata de Deus não é assim, pois Deus só gerou um Filho, que é o Senhor Jesus segundo a carne (1ª João 4:9). Os humanos fomos gerados por nossos pais segundo a carne, e herdamos deles a pecaminosidade original (Salmos 51:5), a natureza humana, suas características físicas e genéticas através do DNA, enfim herdamos a imagem e semelhança de nossos pais (Gênesis 5:3).

Aqueles que foram regenerados por Deus segundo o Espírito Santo, herdaram de Deus a natureza divina, sua imagem e semelhança, e suas características espirituais através do ‘DNA’ espiritual de Deus (Colossenses 3:10). E assim o Senhor Jesus deixou de ser o Filho Unigênito (João 1:18) para ser o Filho Primogênito de Deus (Romanos 8:29).

“Segundo a sua própria vontade, ele nos gerou pela palavra da verdade, para que fôssemos como que primícias das suas criaturas”. (Tiago 1:18).

Desde a queda do homem (Gênesis 3:21-23), a única maneira de sermos justificados diante de Deus é o derramamento de sangue do sacrifício de um inocente (Levítico 9: 2; Números 28:19; Deuteronômio 15:21; Hebreus 9:22). Jesus foi o último e perfeito sacrifício que satisfez de uma vez por todas a ira de Deus contra o pecado (Hebreus 10:14). Sua natureza divina tornou-o apto para o trabalho de Redentor; o seu corpo humano forneceu o sangue necessário para redimir. Nenhum ser humano com uma natureza pecaminosa poderia pagar tal dívida. Ninguém mais poderia satisfazer os requisitos para se tornar o sacrifício pelos pecados de todo o mundo (Mateus 26:28; 1 João 2:2). Se Jesus fosse meramente um homem bom como alguns afirmam, então Ele tinha uma natureza pecaminosa e não era perfeito. Nesse caso, a sua morte e ressurreição não teriam poder para salvar ninguém.
  
6-   JESUS SE ENTREGOU VOLUNTARIAMENTE
Os evangelhos dizem: “Minha alma está agora conturbada. Que direi? Pai, salva-me desta hora? Mas foi precisamente para esta ora que eu vim.” (João 12,27). Lemos ainda em Hebreus 5,7-8: “É ele que, nos dias da sua vida terrestre, apresentou pedidos e súplicas, com veemente clamor e lágrimas, àquele que o podia salvar da morte; e foi atendido por causa da sua submissão”.

Agora consideremos de perto o texto de Marcos:
E tomou consigo a Pedro, e a Tiago, e a João, e começou a ter pavor, e a angustiar-se. E disse-lhes: A minha alma está profundamente triste até a morte; ficai aqui, e vigiai. E, tendo ido um pouco mais adiante, prostrou-se em terra; e orou para que, se fosse possível, passasse dele aquela hora. E disse: Aba, Pai, todas as coisas te são possíveis; afasta de mim este cálice; não seja, porém, o que eu quero, mas o que tu queres. - Marcos 14:34-36.

Jesus começou ter pavor e a angustiar-se. E depois afirma estar triste até a morte. Marcos faz uma narrativa indireta da oração de Jesus: “prostrou-se em terra; e orou para que, se fosse possível, passasse dele aquela hora.” Depois Marcos coloca as palavras diretamente na boca de Jesus: ” Aba, Pai, todas as coisas te são possíveis; afasta de mim este cálice; não seja, porém, o que eu quero, mas o que tu queres.”

Observando a narrativa de Marcos e a outra colocada na boca do próprio Cristo, vemos claramente que “cálice” está em relação à “hora”, e não à morte em si.

O que nos perturba nesta passagem é o fato de que aparentemente Jesus queria “afastar” de si a morte. Porém poderíamos ler em outra perspectiva. As palavras de Jesus não visam escapar da sua missão, mas é um pedido para atrasar aquilo que estava para acontecer, a separação do Pai.
  
7-   JESUS NÃO TEVE MEDO DE MORRER
A Bíblia se cala, e não diz que Jesus teve medo, e nem que não Ele não teve medo. Porém, é fato que, alguns textos bíblicos jogam luz aludindo a este assunto, e fazem-nos ver o que não vemos no texto do Getsêmani.

Devemos lembrar que uma das instruções mais repetidas por toda a Bíblia, em ambos os testamentos, é a ordem dada ao povo de Deus por cerca de 265 vezes: “NÃO TEMAS”. Isto para fortalecer a Fé do povo de Deus em momentos de tribulações.

Devemos nos lembrar do que Paulo nos ensinou: “Porque Deus não nos deu o espírito de temor, mas de fortaleza, e de amor, e de moderação.” - Timóteo 1:7. - Então... Se Jesus teve medo da morte, Ele não teria recebido este Espírito?

Lembremo-nos também que Deus não aceitou os medrosos no exército de Gideão, e dispensou mandando embora todos os medrosos, 22 mil homens que tinham medo de morrer - Juízes.7:3.
Se Deus não aceitou os medrosos no exército de Gideão, enviaria o seu próprio Filho para consumar a redenção sabendo que Ele teria medo da morte?

Devemos ainda recordar que os medrosos encabeçam a lista daqueles que não entrarão no Reino do Céu. - Apocalipse 21:8. Os medrosos serão lançados no lago que arde com fogo e enxofre. Se Jesus teve medo da morte estaria incluído nesta lista?

Lembremos também que a morte em si, não pegou a Jesus de surpresa causando-lhe pavor. Ao contrário, Jesus mesmo deu a Sua vida por amor das suas ovelhas. Ninguém tirou a sua vida, Ele mesmo a deu, para depois tornar a tomá-la – João 10:17,18.

Recordemos que Jesus não teve medo de morrer, pois por sua morte aniquilou aquele que tinha o império da morte, isto é, o diabo. E livrou todos os que, com medo da morte, estavam por toda a vida sujeitos ao medo. - Hebreus 2:14,15.

Lembremos também das palavras de Jesus: “Não temam os que matam o corpo, e não podem matar a alma; temei antes, Aquele que pode fazer perecer no inferno a alma e o corpo.” - Mateus.10:28.

Logo, se Jesus ensinou aos homens, simples mortais, a não temerem a morte, a serem fortes nos dias de angústias e tribulações, sendo Ele mesmo Deus e homem simultaneamente, teria Ele temido a morte?

Se Jesus temeu a morte como dizem alguns, Ele não praticou o que Ele mesmo ensinava.


Quando Jesus foi ao jardim do Getsêmani para orar na quinta-feira antes de ser traído por Judas Iscariotes e entregue ao julgamento dos homens ímpios, Ele disse aos Seus discípulos que Sua alma estava profundamente triste, numa tristeza mortal (Marcos 14:34). Ele estava tão angustiado que chegou a suar sangue (Lucas 22:44). Ele também orou, dizendo: “Pai, se queres, afasta de mim este cálice; contudo, não seja feita a minha vontade, mas a tua” (Lucas 22:42).

Quando lemos isso, alguns de nós pensam que Jesus estava com medo da morte até o ponto de o Seu lado humano “falar mais alto”, ou então que Ele não queria se entregar pelos nossos pecados. Mas por que, exatamente, o Senhor ficou tão entristecido e angustiado?

Primeiramente, não devemos considerar que Jesus estivesse com medo da morte, haja vista que Ele próprio instruiu os Seus discípulos a não temer a morte física. Ele sabia que Sua alma iria para o Paraíso, pois prometeu ao ladrão da cruz que estaria com ele no Paraíso naquele mesmo dia (Lucas 23:43). Além disso, antes de morrer, Jesus entregou o seu espírito ao Pai (Lucas 23:46). Desse modo, é impossível que a angústia do Salvador se baseasse em medo da morte física.

Ademais, não podemos nem ao menos pensar que Jesus não quisesse se entregar por nós, pois, em João 12:27, Ele disse: “Agora meu coração está perturbado, e o que direi? Pai, salva-me desta hora? Não; eu vim exatamente para isto, para esta hora”. Ele não pediu que o Pai o livrasse da morte física para expiar os nossos pecados. E essas palavras não podem entrar em conflito com Lucas 22:42, pois a Escritura não contém nenhuma contradição.

Assim, a única explicação é que, em Lucas 22:42, Jesus estava pedindo livramento de outra coisa: da separação do Pai. Ele sabia que, ao assumir os pecados da humanidade, seria separado do Pai. Na cruz, Jesus gritou: “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?” (Mateus 27:46; Marcos 15:34). Esse brado de Jesus é o cumprimento da profecia messiânica registrada no Salmo 22:1: “Meu Deus! Meu Deus! Por que me abandonaste?”.

Deus determinou que a morte seria a penalidade adequada e justa pelo pecado (Gênesis 2:16-17). De fato, “o salário do pecado é a morte” (Romanos 6:23). Uma vez que “todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus” (Romanos 3:23), todos estão sentenciados à morte.

Mas Jesus, na Cruz, pagou o preço pelos pecados de todo o mundo. Naquele momento de agonia na cruz, Cristo representava toda a humanidade pecadora. “Deus tornou pecado por nós Aquele [Jesus] que não tinha pecado, para que nEle nos tornássemos justiça de Deus” (2 Coríntios 5:21).

A Bíblia nos diz que o pecado faz separação entre o pecador e Deus: “Mas as vossas iniquidades fazem separação entre vós e o vosso Deus; e os vossos pecados encobrem o seu rosto de vós, para que não vos ouça” (Isaías 59:2). Por causa do pecado da humanidade, Pai e Filho foram separados na cruz, e pela última vez o pecado separou o homem de Deus.

Por meio do sacrifício de Cristo, Deus queria nos remir de nossos pecados e nos conceder a eterna salvação (2 Coríntios 5:18-19). “Ao levar muitos filhos à glória, convinha que Deus, por causa de quem e por meio de quem tudo existe, tornasse perfeito, mediante o sofrimento, o autor [Jesus] da salvação deles” (Hebreus 2:10).

Por isso, só Jesus pode nos salvar; “não há salvação em nenhum outro, pois, debaixo do céu não há nenhum outro nome dado aos homens pelo qual devamos ser salvos” (Atos 4:12). Assim, devemos ser infinitamente gratos a Deus por ter nos amado e entregado Seu Filho para morrer no nosso lugar, oferecendo salvação a todo aquele que crê (João 3:16). “Pois também Cristo sofreu pelos pecados uma vez por todas, o justo pelos injustos, para conduzir-nos a Deus…” (1 Pedro 3:18).

Outrossim, há evidências suficientes nas Escrituras para acreditarmos que o sacrifício de Cristo foi espontâneo. Deus Pai elaborou, na eternidade, um plano de redenção para a humanidade, o qual só se cumpriria com o sacrifício de Cristo na Cruz. Porém, Jesus não foi obrigado a levar esse projeto à consumação. Ele o fez livremente. É o que vemos em Mateus 26:

Quando Judas traiu Jesus e o entregou às autoridades, os soldados armados O prenderam. Vendo o que faziam, Pedro tomou sua espada e feriu um dos homens. Ao ver isso, Jesus o repreendeu, e mandou-lhe guardar a espada (pois todos os que empunham a espada, pela espada morrerão), e disse-lhe: “Você acha que eu não posso pedir a meu Pai, e ele não colocaria imediatamente à minha disposição mais de doze legiões de anjos? Como então se cumpririam as Escrituras que dizem que as coisas deveriam acontecer desta forma?” (Mateus 26:53-54).

Jesus poderia pedir ajuda ao Pai, e então Ele lhe mandaria, imediatamente, mais de doze legiões de anjos para salvá-lo. Isso evidencia que o Pai, de modo algum, forçou Jesus a sacrificar-se pela humanidade; ao contrário, foi Jesus que, livremente, decidiu cumprir o plano do Pai, para que assim as Escrituras se cumprissem. De fato, em outra passagem da Escritura, Ele disse também: “Por isso é que meu Pai me ama, porque eu dou a minha vida para retomá-la. Ninguém a tira de mim, mas eu a dou por minha espontânea vontade. Tenho autoridade para dá-la e para retomá-la. Esta ordem eu recebi de meu Pai.” (João 10:17,18).

No Salmo 40, há uma profecia que evidencia a espontaneidade do sacrifício de Cristo: “Sacrifício e oferta não pediste, mas abriste os meus ouvidos; holocaustos e ofertas pelo pecado, não exigiste. Então eu disse: Aqui estou! No livro está escrito a meu respeito” (Salmos 40:6-7).

Outra passagem que mostra isso é Efésios 5:2: “… Cristo nos amou e se entregou por nós como oferta e sacrifício de aroma agradável a Deus.”

8- CONCLUSÃO

Uma vez que Jesus tomou sobre Si os nossos pecados e enfrentou a pena de morte no nosso lugar (pois o salário do pecado é a morte – Romanos 6:23), como está escrito em Isaías 53:4-7, Ele enfrentou a consequência disso também: a separação de Deus, haja vista que o pecado levado sobre Si fez separação entre o Jesus e Deus (Isaías 59:2). Era isso o que causava tanta angústia a Cristo: ser separado do Seu amado e íntimo Deus e Pai Celeste, e não o fato de enfrentar a morte por nós.

O que Ele enfrentou foi inimaginável, e é a dor que os ímpios impenitentes, que rejeitam o sacrifício de Jesus, sofrerão quando enfrentarem o Juízo: “Ele punirá os que não conhecem a Deus e os que não obedecem ao evangelho de nosso Senhor Jesus. Eles sofrerão a pena de destruição eterna, a separação da presença do Senhor e da majestade do seu poder” (2 Tessalonicenses 1:8,9). No inferno haverá choro e ranger de dentes!


Glória ao Pai, por meio de nosso Senhor Jesus Cristo, porque Ele nos amou e providenciou para nós expiação para os pecados, a fim de sermos salvos por sua infinita graça! (Romanos 3:21-26; 1 João 4:10).



[1] Wayne Grudem, Systematic Theology: An Introduction to Biblical Doctrine (InterVarsity and Zondervan Publishing, 1994), p. 556.